Mais eficiência, menos esforço – O princípio fundamental do judô fora dos tatames

Durante um tempo eu trabalhei numa fábrica metalúrgica operando máquinas de corte de aço. Eram umas daquelas prensas grandes que faziam diversos tipos de furos e padrões nas chapas. Vez em quando as máquinas quebravam ou apresentavam falhas e a empresa dispunha de alguns mecânicos de prontidão para consertá-las o mais rápido possível, afinal, quanto mais tempo paradas, menos tempo produzindo.

Um desses mecânicos se diferenciava bastante dos outros na hora de resolver esses problemas. O sr. Cícero, vulgo “Japa” (com certeza de descendência oriental), não falava muito, não reclamava e não fazia cara feia quando uma máquina quebrava. Enquanto a maioria dos outros mecânicos levaria um bom tempo dando palpites e desmontando partes desnecessárias da máquina com defeito, ele fazia sempre umas três ou quatro perguntas básicas antes de pôr a mão em qualquer coisa: “Como ela parou?”, “Ela fez algum barulho diferente antes de parar?”, “Você fez algo de errado?”…  E após isso, ele começava a rodear a máquina só olhando, ouvindo o motor, checando a graxa, o óleo, pensando por um tempo, para só depois abrir qualquer peça, quando necessário. Por mais sossegado que isso pareça, o sr. Cícero era sempre o cara que dava jeito mais rápido nas máquinas. Sem dúvida o mecânico mais eficiente da empresa.

O sr. Cícero nunca fez judô mas conseguia aplicar um princípio fundamental da arte em seu trabalho.. A máxima eficiência com o menor esforço, o Seiryoku Zenyo. Ele não se precipitava em dar soluções, apenas analisava tudo primeiro, traçava alguma estratégia mental e voilá!, resolvia mais rápido que qualquer um!

O princípio do Seiryoku Zenyo definido por Kano, não se limitava ao melhor uso da força física, mas se expandia para o melhor uso da energia mental também. Se fizermos uma análise profunda sobre o que significa isso, perceberemos que tudo o que envolve o progresso humano, desde os primórdios, tem como mola propulsora o melhor uso da energia para realizar trabalho.

Pare por um minuto e pense em tudo o que a humanidade criou. A roda, a alavanca, o machado e todas as ferramentas e coisas que por simples que sejam revolucionaram o mundo… praticamente todas elas têm como objetivo potencializar a energia empregada para que trabalhos maiores sejam realizados com menos força. Não fosse isso, o ser humano com sua estatura e força insignificantes não conseguiria construir prédios, navios, aviões, estradas…

Não é à toa que o Seiryoku Zenyo é a base do judô, pois ele também é a base do progresso humano. A prática de nosso judô é apenas um exercício do que deve ser expandido e levado para nossa vida pessoal. É apenas uma amostra de como podemos manipular e direcionar melhor a energia física e mental nos estudos, no trabalho e com nossa família, das coisas simples às mais complexas. O Aikidô, tem uma visão mais mística sobre o mesmo conceito, afirmando que toda a energia do Universo busca o melhor caminho para ser dissipada.

Enfim, para todo judoca iniciante, tomar consciência deste importante princípio é crucial para seu aperfeiçoamento técnico e para um amadurecimento mais rápido sobre o que é ser judoca. Confesso, passei muito tempo de minha vida judoística pensando que compreender e dominar o Seiryoku Zenyo só seria útil dentro do tatame, num shiai.

Meu Deus, como meu judô era limitado 😛

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