Judô, Jujutsu e o que isso tem a ver com o machado de Heikki Kärnä

machado_prehist
Machado de pedra pré-histórico

O machado é um objeto utilizado pela humanidade há pelo menos 5 mil anos. No princípio, era construído com pedras e, com o advento do aço, passou a ter uma lâmina cortante. Foi usado como ferramenta, como arma, mas não teve lá tanta evolução no seu design após isso.

Heikki Kärnä é um senhor finlandês, controlador de vôo aposentado, que resolveu morar num lugar calmo no meio de uma floresta. Ao cortar lenha para construir uma cabana, Heikki passou por apuros quando deu um golpe falso e seu machado acertou-lhe a perna, o que poderia feri-lo gravemente se ele não estivesse usando um coturno grande para sua proteção. A partir de então ele começou a pensar em desenvolver um machado mais eficiente e que oferecesse menor risco no manuseio e trabalho diário. Foram 15 anos de testes com diversos protótipos até chegar ao resultado pretendido. Um machado leve, com lâmina curva, sem fio de corte, que ao mesmo tempo em que penetra, faz uma alavanca abrindo a madeira e parando o movimento ao final. Com vocês, o Leveraxe:

Heikki Kärnä, buscando o melhor uso da força e aproveitamento de energia, simplesmente reinventou o machado. Um instrumento simples que de tanto tempo que passou sem grandes transformações, qualquer pessoa comum daria como “acabado”.

Assim como Kärnä viu num objeto milenar a possibilidade de aperfeiçoamento, Jigoro Kano passou por uma situação semelhante quando praticava o milenar Jujutsu. Durante os vários anos em que estudou a arte, percebeu que sua tonalidade agressiva e voltada para a guerra não fazia mais sentido em tempos de paz. Muitas das técnicas eram altamente lesivas e quase sempre visavam finalizar o oponente com golpes fatais. Isso tornava impróprio o ensinamento para mulheres e crianças e a arte acabava por cair na fama de “coisa de bárbaros”.

Kano então, pensando em uma forma de evitar que o Jujutsu caísse no esquecimento, selecionou as melhores técnicas e concebeu princípios filosóficos que transformavam os fins de guerra em um caminho para o desenvolvimento do corpo, da mente e do espírito. Com o Judô, Kano reinventou e imortalizou o Jujutsu.

Tanto Kärnä quanto Kano, viram em ferramentas já tidas como “prontas e acabadas” a possibilidade de aprimoramentos. Você pode até me dizer que a reinvenção do machado ou de uma arte marcial qualquer não vá mudar o mundo. Não mesmo, pois não são as coisas que mudam o mundo, são pessoas que enxergam oportunidades de mudar as coisas mesmo onde ninguém mais enxerga e, além disso, não descansam até conseguirem… Essas pessoas é que mudam o mundo.

Imagine durante os 15 anos que Heikki passou desenvolvendo seu machado, quantos protótipos já pareciam bons para outras pessoas, mas pra Heikki ainda não estavam “bons o suficiente”…  Imagine durante os vários anos que Kano passou desenvolvendo o judô, quantas oportunidades ele teve pra pensar que não daria certo, quando por exemplo, esperava tardes inteiras sem que aparecesse um aluno sequer para treinar…

Toda nossa capacidade de criar e transformar deve vir de dentro pra fora. Para se tornar uma pessoa capaz de aperfeiçoar coisas, é preciso um constante desejo de aperfeiçoar a si mesmo. E é justamente isso que o judô nos ensina. Através da busca pelo aperfeiçoamento das técnicas com as repetições de uchikomis ou randoris, tendemos a copiar este comportamento em outros aspectos de nossa vida.

Se você acredita que já domina e executa com perfeição o Seoi Nage por exemplo, faça mais uma vez e peça opinião dos colegas, peça um olhar crítico de seu sensei e veja se há algo a melhorar, pois em 99% das vezes há. Feito isso e vendo que já atingiu um nível superior da técnica, passe para outra, e assim por diante até um ponto em que tiver domínio de praticamente todas, então, você poderá voltar uma a uma e perceber que novas formas ou combinações de técnicas podem ser executadas, ou quais técnicas podem ser recriadas ou adaptadas. Esse é um trabalho que levará muitos anos, mas os resultados serão os melhores.

Não quero que você seja um bitolado perfeccionista, mas quero que pense que quando a busca constante pela melhoria fizer naturalmente parte de seu treino, então você verdadeiramente terá praticado o judô além do esporte, o judô que Kano queria. A partir daí, leve esta prática para a vida e com certeza, você será uma pessoa capaz de reinventar o ambiente em que vive.

O Judoca agradece sua visita e espera que tenha gostado. Deixe seu comentário e siga também no Facebook e Twitter! 😉

 

Comentários

2 thoughts on “Judô, Jujutsu e o que isso tem a ver com o machado de Heikki Kärnä

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *