4 motivos para melhorar seu Ne-waza

Antes de conhecer o sensei Katsuhiko Kashiwazaki eu era um cara que não dava o menor valor para técnicas e lutas de solo. Quando competia em shiais eu era do tipo que, quando a luta passava para o chão, eu logo me agrupava, ou fugia, pra voltar a lutar de pé o mais rápido possível.

Quando conheci a figura de Kashiwazaki através de um livro emprestado chamado “Fighting Judo” fiquei boquiaberto com a quantidade de técnicas de solo até então inimagináveis para mim. Daí então procurei estudar seus ensinamentos e aperfeiçoar meu judô também no solo, mas não só isso, absorver um pouco a forma que sensei Kashiwazaki vê o judô competitivo.

Katsuhiko treinava na Universidade de Tokai, no Japão e aos 16 anos teve uma lesão no cotovelo que o impedia de executar sua técnica preferida, o morote seoi nage. Ele então teve que repensar seu judô utilizando mais técnicas de sutemi waza e viu que para sobreviver usando estas técnicas, um bom trabalho de solo era imprescindível. Foi aí que Katsuhiko se destacou, não só por adaptar seu judô, mas por modificar golpes para seu melhor uso e assim, trazer inovação técnica para o judô da época. No método de Kashiwazaki, não há interrupção na transição da luta de pé para o solo. Ele vê todo o conjunto como parte de uma mesma técnica sendo a transição para o solo algo que sempre vai acontecer, quer o árbitro dê ippon ou não.

Não é a toa que em suas lutas vê-se claramente que ele levava isso muito a sério. Todas as técnicas que fazia tinham continuação para o solo, não importasse o árbitro já estar com a mão bem estendida em Ippon.

Ao pensar na competição dessa forma e buscar aperfeiçoar minhas técnicas de solo para todas as ocasiões, comecei a ver uma melhora significativa em meus randoris e shiais. Eu não lutava mais num só campo, e meu vocabulário de técnicas aumentou dramaticamente. Quando se estuda técnicas de solo além das formas ortodoxas, vê-se que o estudo é tão infinito quanto o estudo em pé.

Visto isso, procurei então mostrar 4 motivos pra você aperfeiçoar-se em lutas de solo e consequentemente melhorar seu judô. Vamos lá!

1. Newaza é mais eficiente contra oponentes maiores

Ao lutar com um oponente de mesmo nível técnico, mas com 20kg a mais que você, acredite, você dobrará suas chances de derrotá-lo se conseguir levar a luta ao solo. Um oponente 20kg mais pesado tem muito mais força e dependendo, basta ele conseguir fazer uma boa pegada pra te jogar com facilidade. No solo isso já não é tão simples caso você desenvolva bem a luta a partir da guarda, por exemplo. Um breve vacilo dele pode ser sua chance.

2. O Ne-waza tem ritmo mais lento

No tachi-waza a luta corre imprevisível, com trocas de posições, pegadas, entradas e esquivas, o ne-waza tende a ser mais previsível e um pouco mais lento, dando tempo para que você até pense na técnica que vai executar.. enquanto no tachi, as técnicas são praticamente reflexos. Todo ne-waza em um shiai começa em decorrência de uma técnica de pé falha ou que foi esquivada. Por isso, muitas vezes um dos atletas estará de bruços para evitar ser virado e o outro tentará virá-lo. Nesse meio tempo há possibilidade de se pensar, mesmo que por uma fração de segundo, em como conseguir uma chave ou estrangulamento. O ne-waza se parece mais com o xadrez e o tachi waza mais com o paintball 🙂

3. Pode ser decisivo em uma luta difícil

Sabe aquele cara encardido da sua categoria que sempre que lutar com ele vai ser uma luta duríssima, com direito a Golden Score e tudo mais? Então, um bom ne-waza pode ser uma nova ferramenta para explorar as falhas dele. E uma coisa é certa, todo golpe que ele investir contra você poderá ser uma oportunidade para levar a luta ao solo e defini-la. Todo seoi nage malsucedido deixa por uma fração de segundo aquela gola solta no pescoço… Uma oportunidade que vale ouro nas mãos de quem sabe o que fazer nesta hora.

4. É mais eficiente em um combate real

Em uma situação de defesa pessoal, nem sempre será possível realizar pegadas ideais para efetuar uma projeção. Seu agressor pode ser maior ou estar usando uma camiseta por exemplo. Outro ponto é que, um golpe de judô bem aplicado, em uma superfície dura como pedra e em uma pessoa despreparada pode realmente machucar muito. Nem sempre situações de defesa pessoal precisam chegar a esse ponto. Chaves de articulações, estrangulamentos e imobilizações podem desestimular um agressor sem de fato machucá-lo. Tudo depende do motivo da agressão,  ou se é mesmo uma situação de vida ou morte.

Os “brigões de rua” sempre tendem a socar e chutar descontroladamente. A melhor opção é encurtar a distância e levar a briga para o chão, onde o resultado será mais previsível em favor de quem domina a técnica.

Procure dividir seu tempo de treino entre técnicas de pé e solo, procure novas formas de estrangulamentos, chaves, passagens, possibilidades de transições de tachi-waza com finalizações em ne-waza.. e esteja disposto a adaptar muitas dessas para sua forma de luta, sua estatura e velocidade. Durante seu aprendizado, tenha em mente que ne-waza não é nenhuma “ciência à parte”,  nem outra arte marcial dentro do judô…

É o próprio judô, completo.

 

 

 

 

Comentários

3 thoughts on “4 motivos para melhorar seu Ne-waza

  1. Bem interessante seu artigo. Creio que vem a culminar com um pensamento q tenho de que um bom judoca hoje em dia precisa também praticar jiu jitsu, que, querendo ou não, manteve acesa a chama do ne waza. A maioria dos faixas pretas de judô não dá importância para as técnicas de solo, ou por não saber, ou porque o judô de competição não exige mais isso. Eu dei muita sorte em ter um Sensei faixa preta nas 2 artes, e que sempre deu foco em ambas, sendo ministrando aulas de judô, ou de jiu jitsu brasileiro.

    1. Obrigado pelo comentário Emerson. O Jiujitsu brasileiro com certeza é muito útil para qualquer judoca pois tem uma visão mais aguçada do ne-waza. Mas o que penso é que esse próprio JJ também está contido no judô, até mesmo as técnicas proibidas em competição eram estudadas com os Atemi Waza.
      Hoje em dia estão mais esquecidas, mas nada que impeça de trazermos de volta.
      Como mencionei no post, fico triste quando judocas pensam no ne-waza como um “judô dispensável” ou como uma outra arte dentro do judô. Não é isso… São pensamentos assim que enfraquecem nossa arte.
      Mais uma vez obrigado! Volte sempre.

  2. Artigo perfeito falou tudo. Hoje tenho praticado o Judô com o Foco no Ne waza, ou seja, 30% projeções e 70% no solo. É o mesmo judô, mesma filosofia e disciplina, a diferença é o foco na prática do Ne waza.

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