As vezes tudo o que a gente precisa é de uma pausa

“A vida necessita de pausas.”

Carlos Drummond de Andrade

Teve uma época que eu precisei parar meu judô. Não foi exatamente falta de motivação, mas confesso que por um certo tempo fiquei bem desanimado e desapontado com meu desempenho no esporte. Vou compartilhar com vocês essa história de uma forma bem resumida:

Comecei a aprender judô já um pouco tarde da adolescência, lá com meus 14 para 15 anos, e como todo bom sonhador (que mal tem?), acreditava em seguir uma carreira competitiva, conquistando títulos paulistas, brasileiros, mundiais.

Infelizmente fiquei longe disso.

Sei que eu não lutava mal, mas, os caras que ganhavam, aqueles que estavam no topo (entre eles na minha categoria, Felipe Kitadai, antes da Seleção), eles sim treinavam pra isso. Nem fico me lamentando, afinal eu mais sonhava do que treinava.

Enfim, chegou então a hora de trabalhar. Aliás, desde os 15 já fazia alguma coisa pra poder pagar minhas despesas do judô porque minha mãe sozinha não podia.. Mas agora eu precisava mesmo de um emprego fixo, e os horários determinados me impediam de treinar. Aposentei meu judogui por longos 3 anos.

Logo quando foi dando aquelas primeiras saudades do treino, eu realmente me perguntava… O que eu faria no judô se já estava tão desanimado e não me interessava competir?

Quando me dava muita saudade, eu via vídeos, daqueles de “melhores ippons”, mas com o tempo comecei a ver conteúdos não só de lutas e técnicas, mas também sobre história do judô, do jujutsu, seus valores e filosofias. Conheci os katás e me interessei muito por eles também. A saudade só aumentava e aumentava, até que finalmente consegui uma brecha na agenda pra treinar.

A primeira vez de volta ao tatame é como pisar nas nuvens. Os primeiros rolamentos, quedas e golpes saem meio quadrados, mas a sensação é maravilhosa. Enfim voltei ao treino vendo o judô de forma totalmente diferente. Pude adaptar minhas metas e criar novas. Com a mente aberta aprendi muito mais tanto teoricamente quanto tecnicamente também.

Talvez você esteja lendo e se identificando com algumas partes dessa história. Muita gente que por algum motivo não consegue seguir a carreira como atleta, é chamado pela vida para os estudos, para o trabalho, para a família ou para outra coisa. Quase sempre isso pede uma pausa da prática do esporte. Mas acredite, se o judô já entrou de vez na sua vida, mesmo parado, você não estará fora dele!

Longe de mim dizer aqui que você então deve seguir o mesmo caminho que eu, mudando toda sua concepção de treino, ou parar de pensar em shiais para treinar apenas katás. O ponto exato onde quero chegar é que, as vezes a pausa, mesmo contra nossa vontade, é a solução pra muitos problemas. Talvez essa pausa seja a coisa mais importante a se fazer pra recobrar as energias, amadurecer as ideias e ver as coisas como são do lado de fora.

O que o mestre Jigoro Kano fez ao alterar o sufixo jutsu(arte) para dô(caminho) parece algo simples e com pouco sentido, mas na realidade teve um impacto muito forte. Veja que arte refere-se à atividade do artista, e no caso específico do artista marcial remete ao movimento e ação diretamente ligados a prática desta arte. Enquanto isso, o Caminho, é uma via que transcende os limites da ação, da estética e do método. Ele pode ser trilhado de infinitas maneiras, até mesmo, quando você pensa estar fora dele.

Portanto, se a vida lhe pedir  uma pausa – caso ainda não o tenha feito – lembre-se que há muitas maneiras de continuar no Caminho. Talvez você possa se especializar estudando arbitragem e até arbitrar em competições eventualmente, talvez sua profissão possa ter algo pra ajudar- como um programador que desenvolveu um app de judô para celular ou um fisioterapeuta que desenvolveu melhores práticas de tratar lesões comuns do esporte – enfim, as possibilidades limitam-se à sua criatividade. Oportunidades são muitas, pra você ver… dá até pra tentar contribuir escrevendo um blog. 😉

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