Algumas coisas que você provavelmente não sabia sobre o judogui

Quando se fala em artes marciais logo se pensa em um homem ou uma mulher vestindo uma roupa branca com uma faixa colorida na cintura.

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Dê um Google por “Artes Marciais” e você vai ver um monte de fotos dessas. 😀

Talvez não fosse bem assim se o judô de Jigoro Kano nunca tivesse existido. Quase todos os uniformes das artes marciais modernas derivam do uniforme aprimorado por Kano para prática do judô. Isso mesmo, e além de ser o avô dos uniformes de luta, o judogui (como passa a ser chamada a vestimenta do judô) também foi o primeiro a introduzir o sistema de graduações com faixas coloridas. Claro que vamos falar mais sobre isso, mas vamos começar do início?

As Origens

É sabido que o jovem Jigoro, estudou várias ramificações do tradicional Jujutsu. Esta modalidade não tinha uma roupa específica para o treino, e comumente era praticada com o kimono mesmo. O kimono era uma roupa comum do dia a dia do japonês naquela época, e os que eram usados nos treinos de jujutsu eram basicamente compostos de um casaco comprido, sem mangas ou com mangas curtas; o Obi que era uma faixa larga para amarrar o casaco e para a parte de baixo uma hakama (um tipo de calça larga até os pés) ou um gobatake(uma espécie de bermuda que ia até as coxas). No fim era algo parecido com isso:

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Apesar de o judô, aikidô e karatê compartilharem raízes no Jujutsu, as técnicas selecionadas para criar cada nova arte são muito diferentes. Enquanto por exemplo no Karatê foca-se mais no estudo de ataques com mãos e pernas, o judô foca em projeções, imobilizações, estrangulamentos e chaves. E foi isso o que definiu as prioridades no desenvolvimento de um uniforme diferenciado para sua a prática.

A fim de que seus alunos pudessem trocar pegadas firmes para arremessar e estrangular, Kano percebeu que um uniforme adequado para prática do judô deveria ter um Wagui (casaco) feito de um tecido grosso, resistente às puxadas; o Shitabaki (calça) deveria ser comprido, também de material resistente; e o Obi, que até então era uma inconveniente faixa larga, passaria a ser uma faixa estreita de algodão. E foi assim que por volta de 1907, ele desenvolveu o judogui na forma que conhecemos hoje, e desde então, este mudou muito pouco.

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As maiores alterações posteriores foram sugeridas pela FIJ, para padronização em competições. Hoje o judogui é ainda um pouco mais comprido e mais largo, com estritas regras a respeito destas medidas para as competições oficiais.

Com a rápida popularização do judô no Japão, as novas artes que surgiram posteriormente como o Karatê e o Aikidô rapidamente perceberam a necessidade de padronizar um uniforme para a prática. Assim, a partir do projeto de Kano, fizeram suas modificações específicas, mas mantiveram o conjunto muito parecido. Casaco com mangas longas, faixa representando a graduação, calças compridas. Mais para frente também aderiram ao modelo várias outras artes marciais como o Hapkidô, Krav Magá, Taekwondô, o Jiujitsu brasileiro e dezenas de outras.

O sistema de graduações

Nos dias antes de Kano ter criado o judô, não havia nenhum sistema de classificação de dan/kyu nas artes marciais. O método de reconhecer o grau de um aluno era através da apresentação de certificados ou pergaminhos emitidos pela escola da arte em que ele treinava. No princípio do judô, Kano também seguia a mesma regra, mas quando o Kodokan começou a crescer em número de alunos, ele viu a necessidade de dividir os mais velhos e mais experientes dos iniciantes. Foram separados então em mudansha, sem graduação; e yudansha, grupo dos graduados. Em 1883 Kano graduou seus primeiros Shodan: Shiro Saigo e Tsunejiro Tomita. Mas os mudansha e yudansha ainda não tinham diferenciação pela cor da faixa, somente pelo título. Isso só aconteceu em 1886 quando Kano permitiu que os Shodan usassem uma faixa preta, que era ainda uma faixa larga de cetim, a mesma usada em kimonos, pois o judogui moderno ainda não havia sido inventado.

Por volta de 1930 Jigoro Kano criou uma nova faixa para reconhecer as realizações especiais de faixas pretas de alto nível. Jigoro Kano escolheu reconhecer o sexto, sétimo e oitavo graus da faixa preta com um obi especial com as cores vermelho e branco alternadas. A cor branca foi escolhida para a pureza, e a vermelha para o intenso desejo de treinar e pelos sacrifícios feitos. Ele também criou a faixa vermelha para reconhecer 9º e 10º dans. Note que aqui ficou esclarecido o motivo das cores escolhidas, e há registros disso. Voltaremos a comentar a respeito ao falar sobre as cores dos judoguis mais a frente.

Em 1935 quando o sensei japonês Mikonosuke Kawaishi ensinava judô na França, este teve a percepção de que nós ocidentais precisamos de algo mais palpável para nos sentirmos motivados num trajeto de longo aprendizado, principalmente quando se trata de crianças, e por isso, desenvolveu um sistema de sub graduações chamados Kyu, com cores para cada etapa. Estas graduações tiveram as primeiras sequências de cores na seguinte ordem: amarela(5º kyu), laranja(4º kyu), verde(3º kyu), roxa(2º kyu) e marrom(1º kyu). No Brasil por volta da década de 1970 foi criada a faixa azul antes da amarela. A partir dos anos 2000, com o forte crescimento do judô e com crianças começando a treinar cada vez mais cedo, houve também a necessidade de se criar mais sub graduações, como a faixa cinza, e recentemente, em 2011 foram criadas as faixas branca com ponta cinza; cinza com ponta azul; azul com ponta amarela; amarela com ponta laranja.

Judogui Branco e Judogui Azul: a grande treta

Há sempre muita especulação e controvérsia sobre as cores dos judoguis. A primeira delas é – “Por que o judogui tem que ser branco?”. Para responder a questão, muito se justifica a necessidade da cor branca falando sobre a pureza da mente, sobre a cor da bandeira do Japão ou sobre as roupas de baixo do Samurai em combate que eram brancas. O problema é que, diferentemente da escolha das cores para as faixas de 6º dan em diante, Jigoro Kano nunca revelou nenhum motivo especial para que o judogui fosse branco. Os primeiros judoguis eram brancos provavelmente porque era a cor do algodão cru do qual eram feitos. Eles são brancos e devem ser brancos até hoje porque japoneses desde sempre são tradicionalistas e conservadores. Por isso o judogui branco é regra. Para que a tradição seja preservada.

Em 1986 o judogui azul foi sugerido pelo atleta campeão mundial Anton Geesink. O objetivo da nova cor era ajudar os árbitros na distinção dos atletas nos combates oficiais e facilitar o entendimento das lutas transmitidas pela TV para os leigos. Antes dele, os oponentes eram diferenciados apenas por uma faixa vermelha amarrada sobre a faixa principal em um dos judocas. A sugestão do judogui azul foi aceita plenamente apenas por volta de 1997 após muitos anos de contestações, e com a ressalva de que o uniforme azul é indicado somente para uso em competições oficiais.

A outra controvérsia trata justamente de usar ou não usar judogui azul em treinos ou competições não oficiais. Alguns acham praticamente intolerável um aluno comparecer a um treino de judogui azul. Por outro lado há senseis totalmente liberais que permitem que alunos treinem com judogis de qualquer cor.

Se houver um meio termo entre eles eu estarei lá. Hoje eu tenho três judoguis brancos.. nenhum azul porque já faz um tempo que não participo de shiais oficiais. O que eu tinha acabei doando. Eu particularmente acredito que estar de branco principalmente em cerimônias, em katás e em treinos com convidados especiais é de suma importância para a manutenção da tradição do esporte. Mas de toda forma, já vi de perto projetos sociais em que dezenas de crianças compartilham os mesmos uniformes e se fossem todos brancos ficaria absurdamente mais difícil mantê-los limpos.

Perceba a diferença abissal entre uma criança carente que não tem condição de adquirir nem mesmo um judogui branco e precisa treinar com o uniforme “da casa”, e um marmanjo que tem os dois mas só usa o azul nos treinos por preguiça de lavar. Nesse caso, o melhor juiz é o bom senso.

Meus 10 centavos sobre tradicionalismo…

Durante as pesquisas para este artigo, vi num fórum um sensei dizendo que na academia dele é permitido qualquer cor de judogui. Outro dia também vi um sensei falar que não exige que se faça o Rei inicial e final ajoelhado e nem que haja um quadro de Jigoro Kano na parede, e por último também conheci um outro sensei que não usava wagui e obi nos treinos, somente a calça. Aí eu fico imaginando que curioso seria se todos estes professores se juntassem e dessem aulas pra uma turma durante um ano. Será que se fizéssemos uma visitinha depois desse tempo veríamos algo parecido com judô? Receio que não.

Não sou inflexível a ponto de não permitir que um aluno treine de azul em meu dojô, até porque o judogui azul já faz parte do judô e chegou pra ficar. Mas não critico de forma alguma o sensei que segue à risca as regras, afinal ele não está errado. São as regras, e elas servem justamente para proteger uma tradição inteira de interferências e distorções individualistas de algumas pessoas.

Não se deve achar que o judogui branco é obrigatório simplesmente porque o Kodokan não achou o azul “fashion o suficiente”. Há apenas uma atenção para que os valores e princípios da arte não comecem a se perder em meio a estas pequenas distorções. Hoje, do outro lado do globo, e há mais de 100 anos da criação do judô por Kano, nós brasileiros mantemos a tradição de começar um treino com um Rei e terminar com um Rei, de saudar-nos com uma respeitosa vênia antes e depois das lutas, de cultivar as falas e nomes de golpes em japonês afim de prezarmos pelos valores inerentes à arte. Isso é judô. Qualquer coisa que começa a ficar muito diferente disso, com toques pessoais e arbitrários sobre o que vale ou não vale a pena preservar pode por tudo a perder.

Algumas curiosidades

  • O judogui que Jigoro Kano usava pra treinar está guardado em exposição no museu do Kodokan.
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Meio baqueado, mas tá valendo!
  • Em 2007 foi realizado um estudo para verificar se atletas que usam judogui azul têm maior probabilidade de vitória em competições.

Foi notado que nas competições anteriores houveram mais vitórias do lado azul que do branco, por isso foi feito o estudo. O objetivo era saber se a cor poderia resultar em alguma influência psicológica sobre os atletas, alterando o resultado em favor do azul. Na conclusão, ficou constatado que os atletas homens que usaram judogui azul tiveram um número considerável a mais de vitórias em relação aos que usaram apenas branco. Mas não houve nenhuma diferença quanto as atletas mulheres. Há fortes indícios de que a cor azul provoca sim efeitos psicológicos diferenciados nos atletas do sexo masculino.

Segue um link do estudo na íntegra(em inglês): http://goo.gl/g5xrjT

  • A primeira empresa a fabricar judoguis é hoje conhecida como KuSakura. São produtos de altíssima qualidade. Difíceis de encontrar no Brasil.
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Com altíssima qualidade, geralmente vem altíssimo preço. Eles custam uma pequena fortuna por aqui.
  • Antes do judogui, as roupas de luta eram as vezes, um tanto quanto… “estilosas”.
Sadakazu Uyenishi
Sadakazu Uyenishi sensei. Um famoso lutador e professor de Jujutsu.

Conclusão

Percebemos que a longa história e legado do judogui vai muito além da eventual discussão branco versus azul. Acima disso, deve-se o respeito à tradição. O que passar deve ser julgado pelo bom senso. Tenho certeza que se você não conhecia estes fatos, vai agora cuidar muito melhor de seu judogui!

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Comentários

7 thoughts on “Algumas coisas que você provavelmente não sabia sobre o judogui

  1. Comecei em um projeto social, não tinha dinheiro sequer para pagar a graduação anual que custava $30,00, quanto mais para comprar um quimono.
    Meu primeiro quimono comprei após cinco anos de prática esportiva, muito suado, por sinal.
    Bela matéria! Ótimo ver que há bom senso, pois assim como eu, muitas pessoas infelizmente não têm como adquirir um quimono.

  2. Fui treinado pelo sensei Massaki Togashi..7 Dan.. já falecido..onde o kimono completo era doado e feito por sua mãe aos poucos alunos da colônia japonesa de Santa Cruz. Da qual tive a honra de pertencer..tradição pura.

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