Kuki Nage e o mito das “técnicas fingidas”

O nome não é muito comum, mas trata-se de técnicas bem conhecidas.  O nome Kuki Nage(arremesso no ar), é um nome genérico dado a um pequeno grupo de técnicas de Te-waza que tem como ponto principal aproveitar o momento de desequilíbrio do oponente de tal forma que seja possível projetá-lo utilizando apenas as mãos, sem auxílio direto de outras partes do corpo como quadris, pés, ou pernas para varrer ou bloquear.

Uma das primeiras formas de Kuki Nage é até hoje creditada ao sensei Kyuzo Mifune, 10º Dan – um dos alunos de Kano Shihan – e é hoje conhecida como Sumi Otoshi, nomeada assim pelo próprio Kano. Porém, há relatos de que Suichi Nagaoka, já executava projeções como esta em randoris, antes mesmo de Kyuzo Mifune. Uma segunda forma da técnica, muito parecida, é o Uki Otoshi.

KyuzoMifune
Sensei Kyuzo Mifune, 10º Dan.

Para quem está começando no judô e ainda não conhece estas técnicas, vou deixar aqui dois vídeos para tirar dúvidas:

Uki Otoshi

Sumi Otoshi

Eu curto esses vídeos de Gokyo do Kodokan. Apesar de antigos, as técnicas continuam atuais e são executadas com perfeição. Excelente material pra tirar dúvidas. 🙂

Percebe-se que as principais diferenças entre elas são a direção e momento. Enquanto no Uki Otoshi, Tori executa kuzushi na diagonal frontal de ukê e o projeta nesta direção no momento em que ele avança um passo, no Sumi Otoshi, o Tori interrompe o passo frontal de Ukê, e neste momento executa desequilíbrio na diagonal para trás deste e projeta-o nesta direção. A pegada pode ser tanto a tradicional, manga e gola, quanto apenas pelas mangas.

O Uki Otoshi é a primeira técnica do Nage no Katá e como foi demonstrado no vídeo, no Katá ele é executado no terceiro passo de tsugui ashi com Tori baixando-se sobre um joelho e puxando firmemente o Uke na diagonal para baixo.

Muitas dúvidas surgem entre os alunos a respeito destas técnicas. Um dos meus certa vez me perguntou: “Sensei, a que momento devo pular para ajudar o Tori?”. A resposta foi: “Nunca!”. Nenhuma técnica de judô jamais necessita que o Ukê pule ou se jogue para ajudar o Tori a concluí-la. É um erro comum achar que Uki Otoshi, Sumi Otoshi e suas variantes são golpes conceituais, de enfeite, onde o Tori puxa e o Uke simula a queda… e que nunca acontecem em lutas de verdade. O fato é que muito ao contrário disso, estas são técnicas muito bem elaboradas que possuem kuzushi, tsukuri, kakê como qualquer outra e, se forem aplicadas com intensidade e momento certos, certamente projetarão seu adversário.

Para executarmos com perfeição um Uki Otoshi ou Sumi Otoshi, bem como suas variações, precisamos primeiro nos desfazer do mito de que são “golpes fingidos”. Depois é preciso praticar o kuzushi, o tsukuri e o momento exato do kakê projetando firmemente o Ukê com a força das mãos. No kakê, é preciso por energia de verdade na puxada para que o Ukê tenha uma queda com aquele arco bonito que acontece em um golpe bem feito.

O mesmo procedimento pode ser executado em todas as diferentes formas destas técnicas como Kouchigaeshi, Ouchigaeshi e Uchimata Sukashi. Antigamente estas variações eram todas denominadas Uki Otoshi ou mais genericamente Kuki Nage. Hoje já foram definidas como técnicas isoladas e existem vários métodos de treino para usá-las eficazmente em competições, principalmente através dos treinamentos de Kaeshi Waza.

Praticar os Kuki Nage desta forma com certeza irá aprimorar seu senso de tempo e aumentar a percepção do quanto o kuzushi correto é importante para uma projeção perfeita.

Obviamente não quero dizer que um Uki Otoshi deva ser a partir de hoje sua principal técnica nos randoris, mas quero desfazer o mito de que este é um golpe decorativo, que não funciona.

Não existe golpe ruim, existe apenas a habilidade de aplicá-lo no momento exato de uma luta. 🙂

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