Entrevista: Conheça Paulo Henrique, o cara que lutou com Maria Portela

Há mais ou menos um mês um vídeo viralizou pelos grupos e páginas de judô, onde um rapaz deficiente físico fazia um randori com a atleta da Seleção Brasileira, Maria Portela.

Eis o vídeo:

Naqueles dias eu estava preparando um artigo sobre judô e pessoas com necessidades especiais. Ia comentar as dificuldades e principalmente sobre as vantagens que o esporte trás também para estas pessoas, pela fácil adaptação de movimentos e por ser uma atividade que beneficia em muito mais aspectos do que somente o físico.
Ao invés de tentar dizer tudo com minhas palavras e com minha pouca experiência, resolvi procurar Paulo Henrique, o rapaz que luta no vídeo, para que pudesse entrevistá-lo e ouvir o que ele tem a dizer a respeito. Conheci então um cara muito inteligente e gente fina. Uma pessoa humilde mas que sonha grande e em nenhum momento se vitimiza pela sua condição física. Muito pelo contrário, não vê nenhum limite para continuar sua vida e realizar seus sonhos.

Antes de mais nada deixo aqui o link para o perfil dele no Facebook, para quem quiser segui-lo ou entrar em contato.

Agora, confira então a entrevista na íntegra:

O Judoca: Paulo, conte-nos um pouco sobre quem você é e qual a sua história.
Paulo: Meu nome é Paulo Henrique Amaral da Silva, tenho 22 anos e foi em 1º de Janeiro de 1994, que a saga começou hahaha!
Nasci de 6 meses, meus pulmões ainda não eram formados e por conta disso, me faltou oxigenação no cérebro. Foi aí, que tive uma, das três paradas cardíacas.
Logo após isso, me colocaram na incubadora, mas como em algum momento eu teria que respirar o ar de fora dela, certo dia, me tiraram de lá.
A partir daí foram 45 dias na UTI e mais duas paradas cardíacas. Minha infância foi resumida em cirurgia e fisioterapia.Minha última cirurgia foi terrível, pois precisei ficar praticamente um ano, na cadeira de rodas. Isso foi em 2009. Eu via meus colegas, jogando futebol e não podia.Minha adolescência foi assim, infelizmente. Mas foi em 2013 que encontrei o que amo fazer. Praticar judô!

O Judoca: Como você conheceu o judô? Quando começou a praticar? Onde você pratica?
Paulo: Conheci o judô através de um casal de amigos meus Diego e Fernanda, ela praticava Jiu-Jitsu e então lhe confessei que sempre quis praticar alguma arte marcial, porém, tinha medo de me machucar.
Foi aí que ela me disse, que o judô seria bom pra mim, pois eu aprenderia a cair, por conta dos ukemis.
Eles me levaram a Associação De Judô Gaba, em São Leopoldo no RS, onde fui recebido pelos senseis Batista e Ferreira e desde então, me apaixonei pelo esporte.

O Judoca: No início, quais foram suas maiores dificuldades e limitações?
Paulo: No inicio a minha maior dificuldade foram as técnicas de Koshi-waza pois por conta da minha limitação, não tenho força nas pernas para projetar o adversário.
Mas não havia só as dificuldades físicas e técnicas, mas também, psicológicas, sou muito ansioso, confesso. Então, achava que nunca sairia da faixa branca, e também, que nunca conseguiria acompanhar os colegas. Hoje dou risada de tudo isso, pois vi, que era uma grande bobagem.
A pedra no meu sapato, foram sempre as técnicas de Koshi-waza, como disse anteriormente, com os ukemis acho que me adaptei de forma rápida pois cair, era algo que eu me interessava e realmente, necessitava aprender.
Quanto as técnicas que tive que adaptar, foram as de sacrifício, mais especificamente, o Yoko Wakare, pois como não tenho força nas pernas, tinha que achar outra forma de derrubar, afinal, cada um usa as armas que têm. Sem esquecer do Tani Otoshi e o Osoto Gari
Essas três são particularmente as técnicas que eu acho, que faço melhor.

O Judoca: Como você costuma contornar os problemas que aparecem nos treinos e no seu aprendizado?
Paulo: Sabe aquela frase que diz: “Para chegar onde muitos não chegam, faça o que muitos não fazem”? Pois então, é nela que me baseio.
Sou ciente das minhas limitações e sei que por isso, meu tempo de aprendizado pode ser maior. Sabendo disso, procuro treinar duas vezes ao dia, todos os dias, pois a repetição, leva a perfeição.
Só fico um pouco chateado, por muitas pessoas não reconhecerem meu esforço. Mas procuro seguir treinando, pois sei onde quero e posso chegar.
Afinal, o impossível é só questão de opinião.

O Judoca: Quais são os atletas que te inspiram?
Paulo: Bom essa resposta vai levar tempo, pois ídolos são muitos.
A começar por um cara que tenho como um grande amigo: Moacir Mendes Júnior. Um cara que acreditou em mim, no meu sonho, me levou na Sogipa em POA, onde treina parte da seleção brasileira de judô.
Mas não só por isso, o cara é uma lenda, quem diz que conhece Judô e Jiu-Jitsu tem que conhecer o Moacir, o cara dono do melhor Ne-Waza do mundo, é impossível alguém que é fã de tais artes, não se espelhar nele.
Pessoa humilde, que merece conquistar tudo que conquistou, chegar onde chegou, ter tudo que tem.
Maria Portela o que dizer dela? Pessoa que eu já admirava por tudo que luta quando sobe no dojo e pela sua história de vida.
Na primeira vez em que cheguei na Sogipa, ela me recebeu com um abraço e me convidou pra treinar.
Como não amar essa baixinha? Haha!
Rochele Nunes, também não há palavras pra descreve-la, sempre com um sorriso no rosto, me recebe super bem, sempre fazemos filmagens, postagens no Snapchat, fotos, é sempre muito legal quando vou à Sogipa.
E por último, mas não menos importante o sensei Kiko que abriu as portas da Sogipa pra mim e me disse que o importante na vida, é o legado que a gente deixa, desde então, levo essa frase comigo.
Também têm a Mayra Aguiar e o Felipe Kitadai que também treinam na Sogipa, porém, ainda não os conheço, mas se Deus quiser, ainda vou conhecer.
E todo restante da seleção brasileira: Tiago Camilo, Rafaela Silva, Sarah Menezes, João Derly, Charles Chibana, Rafael Silva, enfim, todos.
E fora do judô tenho como ídolo Cristiano Ronaldo, jogador do Real Madri e da seleção portuguesa de futebol. Justamente pela sua dedicação nos treinos.
Vi uma declaração do Jesé Rodríguez, na época jogador das categorias de base do Real Madri, certa vez, onde ele dizia o seguinte: “No meu primeiro dia de treino no profissional queria ser o primeiro a chegar, cheguei duas horas antes, Cristiano Ronaldo Já estava lá.
Ou seja, os caras são diferentes, porque fazem diferente.

O Judoca: Quais são suas metas esportivas para o judô?
Paulo: Minhas metas competitivas são por que não, chegar as paraolimpíadas (nunca me imaginei dando entrevistas e veja onde estamos, hahaha!, isso só mostra, que posso chegar onde quiser, basta acreditar); ser faixa preta; dar aulas; enfim, trabalhar com isso, pois é o que amo fazer.
E um patrocínio sempre é bom, não vou ser hipócrita e negar isso, se algum patrocinador se interessar pela minha história, estamos aí.

O Judoca: Qual sua opinião sobre o suporte das Federações aos atletas com necessidades especiais? Quais sugestões você faria a estas entidades que representam o judô nos Estados?
Paulo: Eu acho, que como na vida tudo é mais difícil para pessoas com algum tipo de deficiência porque não ter uma categoria para pessoas “especiais”? Somos diferentes de alguém?
Talvez com a divulgação do vídeo do meu Randori com a Maria Portela, a federação abra os olhos (e é esse o objetivo principal).
E também quero que esse vídeo sirva para incentivar outras pessoas portadoras de deficiência a começar a treinar, encarar, não ter medo, pois o preconceito está na cabeça de quem pensa assim, não na nossa.
Nós podemos tanto quanto os outros.
Somos especiais pela nossa determinação e não pelo problema físico.
Eu inclusive, já dei várias provas disso.
E sim, eu acho que já deveriam ter criado uma categoria pra nós na FGJ.

O Judoca: Fora do judô, você já sofreu ou costuma sofrer alguma espécie de preconceito?
Paulo: Sim, é difícil, muitas vezes fico magoado, mas procuro levantar a cabeça, tenho a consciência tranquila, sei dos meus objetivos, pobres daqueles que pensam que somos incapazes de algo.

O Judoca: O que você diria pra motivar alguém com necessidades especiais a começar a praticar esportes?
Paulo: Já diria Renato Russo: “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar nos sonhos que se têm, ou que seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém.”
Se você gosta do judô, não tenha vergonha, venha treinar, ninguém pode acreditar tanto em você, como você mesmo.
Siga meus conselhos e ippon neles! Osss
Hahaha!
Basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz, de sacudir o mundo.

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