O judô competitivo está ficando feio?

Desde o fim das Olimpíadas estou ensaiando escrever algo sobre isso. Antes de tudo, preciso mencionar o bom desempenho dos atletas brasileiros que lutaram nestes Jogos, especialmente a Rafaela Silva, que por toda a história de “volta por cima” fez a medalha de ouro valer por diamantes!

Apesar dos bons resultados da nossa seleção, uma discussão veio à tona no meio judoístico: As lutas têm parecido feias!

O judô competitivo está muito travado; quase não há ippons; muitas lutas decididas por shidôs; aplicações de golpes meio improvisadas; técnicas desconhecidas; enfim… estes são alguns dos tópicos que os judocas levantaram percebendo que as competições estão perdendo a essência do Seyrioku Zenyo e temem por isso acabar transformando a nobre arte em “apenas mais uma luta de agarrar”.

Antes de apenas fazer críticas a todos estes pontos levantados, procurei pensar sobre o quê realmente faz chegar a este ponto. Muitos culpam a regra da pegada de perna, outros dizem que shidô não deve valer como desempate, etc., etc… Mas acho que essa discussão é realmente muito complexa e, não serão apenas mudanças em regras de arbitragem que vão fazer isso mudar da noite pro dia.

Judô clássico vs Judô moderno: um duelo inexistente

O que vem a ser uma luta bonita? E o que é uma luta feia? Definir isso é muito importante. De um modo geral, acho que uma luta bonita é aquela em que os oponentes mantém ataques contundentes, com técnicas bem definidas, trabalham as pegadas, aproveitam o solo e buscam o ippon. Uma luta feia seria o oposto disso, um combate reduzido à falsos ataques, golpes aleatórios e impossíveis de identificar, trocas de pegadas intermináveis e aí ganha aquele que receber menos shidôs.

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Eu chamo essa de Gira-gira Otoshi! 🙂

Notei que os narradores dos canais de esporte acabaram dividindo esses tipos como judô clássico, para a luta bonita e judô moderno, ou judô alternativo para a luta feia. Repetiram isso diversas vezes e o rótulo acabou pegando. Vi em diversos grupos de debate, judocas falando sobre esse tal “judô moderno”.

Pra mim não é bem por aí. O judô competitivo como um todo se modernizou para se adaptar às regras e as diferenças principais que vemos nas formas de combate se dão por regionalidades, não por modernizações. As escolas da Rússia, Azerbaijão e Geórgia por exemplo, focam mais na força física e técnicas menos ortodoxas para atingir seus objetivos. Atletas japoneses por outro lado, lutam com uma postura diferente e executam técnicas mais definidas, nem por isso concordo em dizer que o judô japonês não é moderno. Muito pelo contrário, ele precisou se modernizar e muito para conseguir o resultado que conseguiu nestes Jogos Olímpicos. Ganharam o primeiro lugar com folga e enterraram de vez o fracasso dos Jogos de Londres. Apresentaram um judô muito técnico e com superioridade indiscutível.

O judô que estão chamando de clássico nada mais é do que buscar o ippon pegando gola e manga para projetar o adversário. Ou seja, pura e simplesmente judô como tem que ser. As técnicas que hoje compõem o Gokyio foram escolhidas e aperfeiçoadas por Kano devido a eficiência delas. Sendo assim, chamar técnicas improvisadas e força bruta de judô moderno é retrocesso… não há avanço nenhum nisso.

Regras de arbitragem

Pra muitos, o grande vilão são as novas regras de arbitragem. O shidô como critério de desempate tem levantado acaloradas discussões e as regras de pegada na perna também. Particularmente não sou totalmente contra estas regras, mas tenho minhas ressalvas sobre a pegada de pernas, pois acredito que esta deveria ser no mínimo um pouco mais flexível. Vendo as estatísticas dos Jogos, fiquei impressionado sobre como é possível, numa competição com 8 desclassificações, 6 serem por pegadas na perna. A regra já tem uns 5 anos e ainda insiste em desclassificar atletas profissionais altamente treinados… tem algo de errado nisso. Chegaram ao ponto de contestar veementemente o waza-ari dado por Rafaela Silva em sua luta contra a atleta da Mongólia. Seu cotovelo apoiou na perna da adversária durante a técnica, mas sua pegada estava na manga, o que validava a pontuação..

Eu só acho que, quando o árbitro tem que estar mais atento a pequenos detalhes de mãos e pernas do que na forma como as costas batem no chão, mais uma estrela de dificuldade é adicionada ao seu já penoso trabalho. Torço muito para que alguns detalhes destas regras sejam revistos.

O nível da competição

Um outro fator não muito discutido mas que com certeza afeta muito a forma como são feitas as lutas é o nível de dificuldade da competição. Perceba que num campeonato regional, muitos atletas iniciantes se confrontam com graduados, e estes por sua experiência, levam as lutas de forma mais técnica e a gente vê mais ippons e lutas bonitas. Conforme o nível vai subindo, vão se classificando apenas os melhores e os combates começam a ficar mais intrincados. Do regional para o estadual você já percebe a diferença, e o mesmo do estadual para o nacional. Agora, imagine em uma competição olímpica, onde só os melhores dos melhores deverão estar. Estes que se preparam por pelo menos 4 anos pra resolver tudo em algumas lutas, com todo o peso da torcida do país nas costas… e sabendo que se perderem, deverão voltar pra casa pra começar tudo do zero por mais quatro anos SE, puderem voltar. Ahhh meu amigo… coloque-se nesse lugar e você não vai querer abrir o jogo. Não vai querer cair e vai lutar por isso com a sua vida. Não vai querer fazer um judô ultra técnico quando seu adversário puxar seu judogui e querer te arrancar do chão te arremessando nas arquibancadas sem que você sequer imagine qual o nome da técnica ele vai usar para tal.

Pense por esse lado e você vai entender um pouco do porquê as lutas foram tão travadas e difíceis de desenrolar. Nesse ponto, muitas das regras ajudam a manter o combate ativo. Não fossem elas, os atletas tenderiam a não se expor de forma alguma e as lutas seriam ainda mais chatas de se ver.

De toda forma a discussão é bem vinda e é ótima. Pessoalmente eu gosto do judô competitivo e acho ele essencial para divulgação do esporte em franco crescimento mundial. Mas temo que ele acabe se tornando uma outra arte marcial, sem os valores e princípios que trazem tantos benefícios as pessoas que a praticam.

E você? Também acha que o judô competitivo anda muito amarrado? Qual sua opinião sobre isso? Deixe seu comentário e visite a página de O Judoca no Facebook!

 

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