Quanto tempo leva pra ser um bom judoca?

Menos do que 10.000 horas. Bem, deixe-me explicar.

Existe uma teoria de que você precisa de dez mil horas de esforço para ser bom em qualquer atividade. Seriam necessárias 8 horas diárias por cerca de 5 anos para atingir essa carga horária. Muito tempo né?

Essa afirmação na verdade se trata de um “telefone sem fio” de um artigo científico feito por K. Anders Ericsson – psicólogo e grande estudioso dos processos de aprendizagem e alto desempenho. A pesquisa de Ericsson, diz que para se tornar um expert em certas competências, são necessárias em média dez mil horas. Veja bem, um EXPERT, um exímio dominador da atividade em questão. Para o trabalho ele utilizou violinistas de nível mundial, premiados jogadores de xadrez, aviadores e esportistas. De alguma forma, as pessoas foram passando informações distorcidas sobre este estudo até que o que eram “10.000 horas para ser um expert em certas atividades” se tornaram “10.000 horas para ser bom em qualquer coisa”. Temos um abismo enorme entre uma afirmação e outra não é mesmo?

Se para ser um expert é necessário tanto tempo, quanto tempo levaria para ser minimamente bom, pelo menos? Essa é a questão que martela na cabeça dos iniciantes no judô. O aluno faixa branca se pergunta quando ele vai conseguir ficar de pé por mais que 30 segundos numa luta; quando ele vai ter habilidades pra aplicar as técnicas em combate e conseguir um ippon..

Sei disso porque obviamente já fui faixa branca e, além do mais, ensino muitos faixas brancas hoje em dia. Quando eles me perguntam “Sensei, demora pra eu ser bom?”, “Quando vou aprender a lutar?”, eu gostaria muito de ter uma resposta exata.. mas há infinitas variáveis, inclusive variáveis que dependem unicamente do aluno e do seu empenho para com a prática.

Mas afinal o que é ser um bom judoca?

Esse é um ponto crucial que precisa ser definido para que você saiba qual objetivo está perseguindo. Porém ele é um pouco subjetivo, cada um pode enxergar de um jeito. Pra grande maioria, principalmente dos iniciantes, o bom judoca é a figura do lutador, aquele que compete, que ganha por ippons. Mas claramente um bom judoca não se resume a ser um bom competidor..

Sendo bem genérico, um judoca pode ser um expert tanto como um competidor, como técnico. Um judoca técnico seria um atleta que conhece um grande conjunto de golpes, contra-golpes, combinações, katás e consegue aplicar os golpes com leveza e facilidade; um judoca competidor é aquele que consegue lutar com desenvoltura; tem um vasto leque de técnicas tanto de pé quanto de solo e consegue aplicá-las nos combates; também tem preparo físico adequado para tal.
Nada impede que um atleta seja tanto um exímio competidor quanto um exímio conhecedor da arte, mas muito provavelmente ele começou buscando ser expert no âmbito competitivo e ao amadurecer, começou a buscar também o conhecimento técnico. Para chegar nesse nível ele levou muitos anos, até mais de uma década.

Então, quanto tempo vai levar pra eu ser “minimamente” bom?

Apesar de não ter uma resposta exata, acredito que é possível estimar um tempo para que um aluno saia do conhecimento zero – que é quando este ainda não sabe amarrar sua própria faixa – até ele se tornar o que podemos chamar de um judoca – que é quando uma pessoa que não sabe nada do esporte consegue reconhecer que este aluno tem qualidades suficientes para ser chamado como tal.

Para sair de um ponto a outro, é necessário que o aluno passe por algumas etapas importantes. A primeira delas, comum em todos os processos de aprendizado é:

Romper a barreira da frustração

Aprender novas habilidades pode ser muito deprimente no início. Se você já tentou tocar algum instrumento musical deve ter passado por isso. Pegar o instrumento já parece algo desengonçado no começo. Os primeiros acordes soam horríveis e quando você resolve cantar junto então… vish… sai de perto! Logo vem aquela sensação de que você não nasceu pra aquilo; que parece um idiota tentando tocar.

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No judô você já se sente desengonçado ao vestir um judogui pela primeira vez. Ao aprender as quedas até que vai bem, mas o tal do “zempô” é complicado demais! Quando vai lutar, aí que azeda de vez. Você é derrubado lutando com crianças que têm um terço do seu peso… Daí mais uma vez vem aquela sensação de que aquilo não é pra você. Mais uma vez você está pagando de idiota fazendo algo que não nasceu pra fazer.

Esse sentimento que se apodera de nós em praticamente toda nova atividade que buscamos aprender é exatamente a barreira da frustração. Ela não passa de um artifício do seu cérebro para proteger seu ego e não deixar que você saia do comodismo. É nela que 90% das pessoas desistem de aprender algo novo.

Com insistência, esta barreira geralmente é rompida após algumas semanas de treino. Você passará a se sentir mais ambientado no tatame e ignorará o sentimento de fracasso. É quando o prazer de treinar começa a aparecer, independente de achar que está indo bem ou não. As crianças normalmente não sentem a barreira da frustração porque elas não focam no objetivo, apenas se divertem com o processo. 🙂

Passada a parte difícil, vem a fase do…

Aprendizado efetivo

Tudo o que você fez até aqui foram meras repetições de movimentos. Desde os primeiros ukemis até as primeiras projeções, você apenas repetiu o que lhe mandavam fazer sem entender exatamente o porquê daquilo. Mesmo que seu sensei tivesse lhe explicado, você ainda não tinha experienciado descobrir as nuances por conta própria. Esta parte é quando o faixa branca “descobre” por exemplo, que fazer um O Soto Gari empurrando dá mais certo do que puxando.. É nessa fase que o aluno, já conhecendo os movimentos e técnicas básicas, passa a aperfeiçoá-las e até consegue fazê-lo sozinho, reconhecendo os próprios erros.

A partir daqui é hora de procurar expandir o vocabulário de técnicas e também tentar aplicá-las nos combates. Mais importante que isso é cair. Apanhar bastante faz parte. Quanto mais o aluno cai, lutando em randoris e shiais, melhor! Desde que ele continue motivado pelo seu professor. “A dor é um bom mestre”, como disse o próprio Jigoro Kano… Cair colabora e muito para a construção de um judoca completo, centrado e com boa técnica. Aquele que é travado e usa de força bruta para não perder, demora muito mais pra desenvolver sua técnica.

Voltando a questão do tempo.. é muito difícil dizer com exatidão quanto tempo leva do início até você se tornar um judoca minimamente bom. Mas sei que você chegou aqui esperando algum número sobre esse tempo..  e.. como disse anteriormente, é possível estimar sim alguns números.

O que posso dizer, é que, tomando por base um aluno que treina em média 3 horas por semana:

entre 0 e 3 meses é um período onde ele aprenderá pouco e encontrará as principais barreiras de frustração. Leva mais ou menos esse tempo pra que o aluno comece a se acostumar com a dor das quedas, a disciplina e a rotina do treino.
De 3 a 6 meses o aluno começa a se familiarizar um pouco mais com as lutas, já consegue fazer os principais ukemis e deve saber executar razoavelmente bem de 3 a 6 técnicas incluindo ne waza.
Do 6º até o 12º mês, é esperado que o aluno já entre na fase do aprendizado efetivo, que é mais sólido e mais polido; quando começa o refino das técnicas aprendidas. Este ciclo de aprendizado se repete daí em diante para cada novo conjunto de técnicas. Ou seja, quando você aprende um novo golpe, ele sai muito esquisito no começo; passado um certo tempo, você começa a entendê-lo melhor e consegue se corrigir fazendo-o, e assim vai se aperfeiçoando.

Resumindo, 12 meses é um prazo legal para que você seja um aluno com habilidades suficientes para ser um bom judoca.
Bom como um campeão olímpico? Talvez não… Mas olhe pra trás e compare o que sabe agora com o que você sabia quando começou. Você progrediu? Ok! Então está no caminho!

Se você já tem mais de 12 meses de treino e acha que não está tendo resultados satisfatórios quanto ao seu desempenho, o conselho que lhe dou é: Tire isso da cabeça!
Treine duro, dê o seu melhor, mas também dê tempo ao tempo.

Por maior que seja o talento ou o esforço, algumas coisas exigem tempo: não dá para produzir um bebê em um mês engravidando nove mulheres.

Warren Buffet

O judô não é um cursinho que você vai terminar e vai receber um diploma escrito “Você é bom!”. O judô é mais que isso. Ele é valioso pra sua vida. E quanto mais você aprender dele, talvez, mais vai querer aprender vai descobrir que nunca haverá um fim de verdade.
Eu gosto muito de Nage no Kata e até hoje, quanto mais defeitos e erros consigo sanar, mais detalhes pra consertar vão aparecendo. Quanto mais eu acho que sei, percebo que não sei.

Na viagem pelo Caminho Suave, relaxe e curta a paisagem. 😉

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