Quem, de fato, foi Jigoro Kano? – A vida privada do fundador do Judô – Parte I

Este trabalho é a tradução de um capítulo do livro The Way of Judo – A portrait of Jigoro Kano and His Students, escrito por John Stevens e publicado pela editora Shambhala. Como não há edição nacional, traduzi este capítulo que achei muito interessante e vou deixar o link ao final do post para quem se interessar em adquirir o livro físico ou e-book, completo, em inglês.

Esta é a primeira de três partes da tradução do capítulo 2, que trata exclusivamente sobre detalhes da vida privada de Jigoro Kano. O intuito aqui é tornar este valioso material acessível a leitores do nosso idioma e, ao mesmo tempo, preservar os direitos do autor recomendando fortemente que vocês adquiram a versão completa.

Kano, o próprio

Kano era a mais pública das figuras públicas. Ele sempre estava pelo mundo – dirigindo o Kodokan, ensinando e dando palestras em todos os tipos de instituições de ensino, viajando pelo globo a pedido do Ministério da Educação e promovendo a causa dos Jogos Olímpicos. Parece que ele mal teve tempo para uma vida privada. Aqui está um vislumbre de Jigoro Kano, o próprio.

A vida familiar de Kano

Em relação à família, era “tal pai, tal filho”. Os filhos de Kano lembravam-se dele como ausente na maioria das vezes. Quando ele estava em casa, passava grande parte do tempo estudando; de fato, era para onde ele ia imediatamente, depois que sua família se alinhava na entrada da casa para recebê-lo.
Kano parece ter ensinado um pouco de judô para sua esposa, Sumako, no início de sua lua de mel, mas seu treinamento não pôde durar muito, pois Kano e Sumako tiveram oito filhos; cinco filhas e três filhos. Como é frequente no caso de filhos de pais famosos, alguns dos filhos de Kano se tornaram ressentidos e rebeldes. Nenhum de seus filhos praticou judô e dois deles parecem ter odiado o esporte.

Família Kano, por volta de 1902 com seis de suas oito crianças. Risei, o segundo filho homem e terceiro diretor do Kodokan, é o segundo da direita.

O primeiro filho, Rishin 1897-1934, foi um pintor. Ele estudou arte na Europa e deu o drástico passo de desistir do nome Kano, tomando o nome da família de sua mãe, tornando-se Rishin Takezoe.
Kano não derramou uma lágrima quando Rishin morreu e foi trabalhar como de costume no dia seguinte à morte de seu filho. 

O segundo filho, Risei (1901-1986), trabalhou para a família imperial como guardião dos arquivos. Ele se tornou o terceiro presidente do Kodokan em 1946, depois do presidente número dois, Jiro Nango, sobrinho de Kano e aluno em sua academia privada e no Kodokan. Como Nango era vice-almirante da Marinha Imperial, as autoridades de Ocupação  consideravam inaceitável que ele chefiasse qualquer coisa, então ele teve que ser removido de seu posto do Kodokan. Embora Risei Kano tenha substituído Nango com relutância, deve-se dizer que ele atuou como chefe do Kodokan de 1946 a 1980, período da expansão mundial do Kodokan (embora como um esporte, não como um modo de vida como seu pai pretendia) . 

O terceiro filho, Riho (1912-1946), era a ovelha negra da família. Preso duas vezes pela polícia por “ligar-se a comunistas”, Riho tinha decididamente opiniões de esquerda. Kano teve que interromper uma importante viagem européia para libertar Riho da prisão. Kano foi severamente criticado pelo comportamento de Riho a ponto de dois instrutores sênior do Kodokan pedirem sua renúncia. Se Kano não renunciasse, eles ameaçavam arruinar sua própria organização de judô. Decepcionantemente, Kano não defendeu seu filho Riho e só deu desculpas. “Riho não foi criado assim. Ele está morando longe de casa há muito tempo. Eu estava na Europa quando ele foi demitido de seu emprego como professor em Shizuoka, e não pude aconselhá-lo.”

Kano conseguiu libertar Riho da prisão, mas imediatamente o enviou aos Estados Unidos para estudar na Universidade de Chicago. Riho permaneceu comprometido com causas de esquerda e trabalhou como correspondente estrangeiro do jornal japonês Asahi Shimbun*. Ele morreu em um acidente de moto em 1946. 

*Asahi Shimbun é hoje um dos 5 maiores jornais nacionais do Japão. – Grifo meu.

As filhas de Kano também praticaram pouco judô, embora a primeira filha, Noriko 1893-1956, fosse diretora da Divisão Feminina do Kodokan quando esta foi fundada em 1926 e acabou sendo premiada com o primeiro dan. Noriko casou-se com Tetsuo Watanuki, um respeitado professor de literatura. Ela parece ter sido a filha favorita de Kano. Noriko, porém, lembrou que foi somente aos setenta anos que Kano começou a atuar como pai e avô. Kano brincava com os netos e levava a família em excursões, frequentemente para visitar suas filhas em diferentes partes do Japão. 

As filhas Tadako (nascida em 1895) e Sawako (nascida em 1898) casaram-se com o mesmo homem, Kazu Shogenji, um dos parentes paternos de Kano. Sawako Kano se tornou a segunda esposa de Shogenji depois que sua primeira esposa, Tadako Kano, morreu. Mareko Kano (1899-1959), casou-se com o empresário Kojiro Hatanaka. Atsuko Kano (nascida em 1907) casou-se com um judoca, Masami Takasaki, apresentado a ela por seu pai. Takasaki, vencedor do primeiro torneio de judô do Japão no ano de 1930, alcançou até o nono dan (O ano da morte de Tadako, Sawako e Atsuko é desconhecido.)

Embora os filhos de Kano não gostassem muito de judô, muitos de seus sobrinhos e sobrinhas estudavam com ele em sua academia particular, o Kodokan, ou em uma das escolas onde ele era diretor.

(O neto de Kano, Yukimitsu, filho de Risei, foi o quarto presidente do Kodokan, de 1980 a 2009. Yukimitsu praticou algum judô, obtendo o primeiro dan. O atual chefe do Kodokan é Haruki Uemura, campeão mundial na divisão de pesos pesados nas Olimpíadas de 1976. As duas filhas de Yukimitsu Kano não têm “nada a ver com judô”. É improvável que o Kodokan seja novamente liderado por um membro da família Kano. Pode ter sido assim que Kano pretendia que fosse o tempo todo.
Ele estava naturalmente preocupado com o futuro do Kodokan após sua morte, mas, por várias razões, não queria que sua família se envolvesse na sucessão. Ele favoreceu o estabelecimento de um conselho executivo com o poder de administrar o Kodokan após sua morte. No entanto, nos últimos anos de sua vida, Kano foi literalmente consumido por seu desejo de realizar as Olimpíadas de 1940 em Tóquio. Desde que ele morreu inesperadamente em 1938, nada foi resolvido.)

A família Kano vivia de maneira simples, frugal em seus hábitos, nunca gastando dinheiro em roupas ou acessórios finos ou refeições caras. Essa era a maneira samurai de viver: sem ostentação, nada extravagante ou berrante, austera e digna. Kano também tinha o desprezo dos samurais por adquirir dinheiro e pela contabilidade, como veremos, que a atitude nobre, porém impraticável na era moderna, quase o levou à falência.

Sobre o autor

John Stevens

John Stevens viveu no Japão por trinta e cinco anos. Ele foi professor de Estudos Budistas e instrutor de Aikidô na Universidade de Tohoku Fukushi em Sendai. Anteriormente, ele escreveu sobre a vida e ensinamentos do espadachim zen Tesshu Yamaoka; Morihei Ueshiba, fundador do Aikidô; o herói de O Zen e a Arte da Arquearia, Kenzo Awa; e sobre o monge budista/artista marcial Regetsu Otagaki.

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E fique por perto que logo eu lanço a parte II. 😉

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