Quem, de fato, foi Jigoro Kano? – A vida privada do fundador do Judô – Parte II

Personalidade e Hábitos

Em sua vida pessoal, Kano seguia sua máxima “mínimo esforço, máxima eficiência.” Ele odiava perder tempo. Se alguém se atrasasse para uma reunião com Kano, assim que a pessoa chegasse, ele anunciava: “A reunião acabou. Saia!”

Ele não se interessava em lidar com detalhes triviais. Comia a mesma coisa todos os dias no almoço para não se incomodar tendo que decidir o que pedir. Ele sempre carregava um guarda-chuva, para que não se preocupasse em levar um com ele ou não. Se ele estivesse viajando com seus filhos ou netos e eles estivessem esperando por um trem ou o que quer que fosse, Kano pediria que tentassem nomear os objetos ao seu redor em Inglês para não perderem a oportunidade de estudar. Quando ele fazia
caminhadas nas montanhas com seus alunos, nunca era simplesmente para
apreciar a vista. Ele lhes dizia: “Enquanto caminham pela trilha, considerem estes importantes fatores e como você reagiria: “E se eu me perder? E se eu for pego em uma tempestade, enxurrada ou uma nevasca? E se eu for atacado por um animal selvagem?”

Uma viagem pra praia nunca era apenas uma excursão agradável. Era um laboratório externo para aprender a não ter medo de água e como nadar, algo especialmente importante para todos os japoneses, cuja nação é cercada pelo oceano.

Kano sempre chegava à estação a tempo de pegar o trem para trabalhar, tentando cuidar de todas as tarefas que pudesse ao longo o caminho de casa. Em outras ocasiões, durante viagens longas com transferências necessárias, Kano podia passar duas horas conversando num café com colegas se ele considerasse o assunto importante. Consequentemente, às vezes ele perdia o trem.

Nos dias de maior movimento, como nas férias de verão, não havia assentos de primeira classe no trem, então, o Diretor da Escola de Preparação de Professores de Tokyo e presidente do Kodokan ia na  terceira classe. Os outros passageiros da terceira classe frequentemente eram seus alunos da escola ou membros do Kodokan: “Veja como Kano Sensei é simples, viajando conosco na terceira classe”. O próprio Kano se sentia bem em ambas as classes, “Desde que eu chegue ao meu destino.” – dizia. 

Na verdade, viajar era a única ocasião em que Kano relaxava. Ele apinhava cada minuto que levava a uma viagem de negócios, mas assim que embarcava no trem, barco ou avião, ele se acalmava.

Kano via as viagens não como um fardo cansativo, mas como uma pausa refrescante.

Quando era possível voar em companhias aéreas comerciais, Kano aproveitava muito mais: “Eu amo voar entre as nuvens e olhar os continentes e vastos mares.”

Ele acreditava que a prática do judô o ensinava a ser temperado, nunca ficando agitado ou entusiasmado demais, não exibindo nem alegria excessiva nem extrema infelicidade, e aceitando lidar com as coisas como elas são, exatamente como elas acontecem. 

Durante uma viagem da França para a Itália, o carro em que Kano estava deslizou e quase caiu de um penhasco. Embora o carro estivesse pendurado metade para fora do vale, Kano, indiferente, disse aos outros passageiros aterrorizados: “Não se preocupem. Vai ficar tudo bem. Alguém virá em breve para nos resgatar.

Kano era um conversador. Não de conversas fiadas mas de discussões abrangentes. Dos pontos mais sutis às implicações mais amplas de um assunto. Ao contrário da maioria dos japoneses, que tendem a ser tímidos e acham difícil expressar suas opiniões claramente, Kano era um bom debatedor, tanto em sua língua nativa quanto em inglês. Ele nunca ficava bravo ou estridente em seus argumentos – ele usava o judô verbal. Mas ele era tenaz. Recusava-se a ceder se ele acreditava que estava certo, argumentando, se necessário até meia-noite, com um hóspede em casa ou com funcionários (inclusive o próprio Ministro) no Ministério da Educação.

Ele não era muito professor de sala de aula, e os alunos alegavam que suas aulas eram chatas – embora os alunos digam isso da maioria de seus professores. Ocasionalmente, apenas dois ou três alunos apareciam, enfurecendo Kano. Na verdade, ele era melhor administrador do que professor de sala de aula. Kano, no entanto, fazia questão de conversar individualmente no escritório do diretor com todos os alunos, pelo menos uma vez antes de se formarem. Ele sempre dizia a estes: “O estudo é belo. Ao estudar, vista-se adequadamente, sente-se ereto, e trate seus livros, papéis e ferramentas de escrita com respeito”.

Os cinco conselhos de Kano para seus alunos de graduação:

  1. Não beba demais.
  1. Não deixe seus alunos verem você indo ao banheiro. (Esta estranha advertência, presumo, pode ser interpretada como “Sempre mantenha sua dignidade na escola e não permita que seus assuntos interfiram no seu comportamento público.)
  1. Nunca deixe nada abalar sua confiança.
  1. Não se esqueça de aplicar o espírito da educação no sentido mais amplo possível.
  1. Embora você esteja se formando na faculdade de professores, não significa que você precisa se tornar um professor. Você precisa ser capaz de usar os talentos que você adquiriu nesta faculdade em qualquer empreendimento.

Aqui estão alguns exemplos da abordagem de Kano como educador.

Kano dizia a seus alunos: “Siga em frente, durma bem, estude muito, aproveite completamente.” Ele também lhes dizia que “as diferenças de opinião são boas, de fato necessárias; no final, no entanto, o consenso é essencial.”

Se Kano visse um estudante andando pelo corredor que parecesse pálido ele o parava e dizia: “Você precisa de mais exercício. Vá ter algumas aulas de educação física.”

Kano dizia a mesma coisa a qualquer um de seus professores que parecessem exaustos quando os recebia em seu escritório ou mesmo durante uma reunião.

A faculdade tinha um barco usado para eventos escolares. Quando ele parou de funcionar, os alunos exigiram que a escola construísse um novo. O diretor Kano recusou porque não não havia dinheiro extra no orçamento para isso. Ele lhes disse: “Se vocês querem um barco novo, levantem o dinheiro.” 

Os alunos fizeram obtendo fundos suficientes reunindo doações entre ele mesmos, professores e ex-alunos. Kano não contribuiu com um iene, mas quando um novo barco foi construído, ele fez uma grande doação para a manutenção do barco. Ele disse a Ueno, o estudante líder do levantamento de fundos: “Você fez um bom trabalho, quase bom demais. Atividades como essa nem sempre serão bem-sucedidas. Se você não tiver suporte, haverá momentos em que até o maior esforço individual não será suficiente para atingir uma meta. Tenha isso em mente e na vida você escolherá suas batalhas sabiamente.”

Como diretor, Kano era bom em dar discursos nas cerimônias da escola e outros eventos, mas até ele admitiu que eles eram frequentemente muito longos. Uma vez em uma palestra e demonstração pública sobre judô que ele estava dando para uma audiência geral, Kano falou e falou, sustentando a ideia de que o judô praticado pelas mulheres seria o ideal. Ele disse que o melhor judô era como uma dança sutil de artes marciais, perfeitamente executada e bonita de assistir. Alguém da platéia gritou:

Já chega! Viemos aqui para ver uma luta, não uma dança! Mostre-nos uma disputa!” 

Kano disse: “Você pode ir a qualquer lugar para ver uma luta. Eu quero mostrar como vencer sem lutar!” Kano se levantou e saiu.

Ele nunca perdeu uma palestra programada, mesmo que ele tivesse que ser carregado em uma maca.

Kano aos sessenta e oito anos

Continua na parte III...

Este trabalho é a tradução de um capítulo do livro The Way of Judo – A portrait of Jigoro Kano and His Students, escrito por John Stevens e publicado pela editora Shambhala. Como não há edição nacional, traduzi este capítulo que achei muito interessante e vou deixar o link ao final do post para quem se interessar em adquirir o livro físico ou e-book, completo, em inglês.

Esta é a segunda de três partes da tradução do capítulo 2, que trata exclusivamente sobre detalhes da vida privada de Jigoro Kano. O intuito aqui é tornar este valioso material acessível a leitores do nosso idioma e, ao mesmo tempo, preservar os direitos do autor recomendando fortemente que vocês adquiram a versão completa.

Sobre o autor

John Stevens

John Stevens viveu no Japão por trinta e cinco anos. Ele foi professor de Estudos Budistas e instrutor de Aikidô na Universidade de Tohoku Fukushi em Sendai. Anteriormente, ele escreveu sobre a vida e ensinamentos do espadachim zen Tesshu Yamaoka; Morihei Ueshiba, fundador do Aikidô; o herói de O Zen e a Arte da Arquearia, Kenzo Awa; e sobre o monge budista/artista marcial Regetsu Otagaki.

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Este não é um link de afiliado e eu não recebo nada por publicar este link. Se gostou da tradução e quiser me ajudar de alguma forma, acompanhe meu trabalho no Facebook e no Instagram @luisojudoca. Botões para redes logo abaixo!

E fique por perto que logo eu lanço a parte III. 🙂

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